Formado por mais de 150 mulheres do Rio Grande do Sul e de outros estados, o Movimento Peleia Braba questiona o espaço ocupado pelo tradicionalismo na distribuição de recursos públicos destinados à cultura e defende uma destinação mais equânime em relação à diversidade das populações e manifestações culturais do RS. O coletivo reúne profissionais da educação, cultura e saúde, com foco em acolhimento, articulação política e análise crítica de editais.
Um dos eixos de atuação do movimento critica a “assimetria e falta de equanimidade” no acesso a recursos destinados à cultura. “A Secretaria de Estado da Cultura (Sedac) lançou prêmios com verba própria do estado que foram criados e direcionados exclusivamente para os Centros de Tradicionalismo Gaúcho (CTGs). Ao mesmo tempo que contaram com esses prêmios específicos e fechados a qualquer outro grupo, os CTGs também puderam se inscrever e concorrer livremente em todos os editais abertos das demais áreas gerais, bem como em editais como Cultura Popular e Culturas Vivas – Pontos de Cultura”, afirma Cris Cubas, produtora cultural e uma das idealizadoras do Peleia Braba. “Não se trata de negar recursos aos CTGs, onde também existem mulheres, pessoas pretas e demandas reais, mas de questionar escolhas de governo que reforçam financeiramente um segmento já historicamente favorecido, material e simbolicamente, em vez de priorizar territórios e populações que continuam desassistidos”, completa a integrante do movimento.
Em nota enviada à Matinal, a Sedac afirma que considera legítimo o debate sobre os critérios de distribuição dos recursos públicos, mas que a existência de editais específicos para o tradicionalismo gaúcho não caracteriza um privilégio. “O tradicionalismo é uma manifestação cultural de reconhecida relevância no Estado e, como outras expressões culturais, pode ser contemplado por políticas específicas de preservação, valorização e fomento, da mesma forma como ocorre com o segmento do Carnaval e do Audiovisual, que também receberam editais específicos de valorização e fomento”, declara a pasta.
“A participação de agentes tradicionalistas nos demais editais também não configura tratamento diferenciado: esses instrumentos são abertos àqueles que atendam aos seus critérios e regras de seleção. A política cultural do Estado não se restringe a um segmento”, ressalta a Sedac – leia a íntegra da nota ao final da matéria.
As mobilizações do Peleia Braba nasceram da rede digital Mulheres Divulgação RS, que une agentes da cultura da Região Metropolitana e interior do estado, contando também com participantes de Bahia, Santa Catarina, São Paulo e Rio de Janeiro. “A constatação de que os espaços de decisão, o acesso aos recursos e a própria narrativa histórica do estado continuam marcados por profundas assimetrias de gênero e raça foi o estopim para unirmos forças. E o convite segue permanentemente aberto para que novas mulheres venham somar a essa peleia”, diz Cubas.
Segundo ela, o movimento surgiu como resposta coletiva às “estruturas patriarcais, machistas, misóginas e transfóbicas no campo cultural gaúcho”, enfrentando também apagamentos históricos vividos por comunidades tradicionais. “Muito antes da chegada de qualquer homem branco, povos originários como os Mbyá-Guarani, Kaingang e Xokleng já habitavam esta terra”, ressalta a produtora cultural.
Além de atuar nas redes sociais, o coletivo realiza ações presenciais. No dia 2 de agosto, promoveu conversas e apresentações artísticas em Porto Alegre, Rio Grande e São Paulo. No dia 15 do mesmo mês, uma roda de samba de artistas mulheres no Bar Avesso embalou a leitura do manifesto do grupo. Para 2027, o Peleia Braba vislumbra transformar a articulação em mostra cultural ou festival.
A íntegra das informações está disponível no site Matinal.



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